Sindicalista vê o país retroceder a tempos obscuros
- Samuel Martimiano

- 31 de mar. de 2020
- 4 min de leitura
Metalúrgico traz a memória experiências que fazem a esperança sobreviver em meio a crises políticas da nação brasileira

O ano era 1974, o Brasil vivia escondido na escuridão da ditadura militar, época em que as pessoas, os partidos políticos, canções, peças eram reprimidas por soldados, agentes do governo e pela censura. Em meio a essa realidade, Luiz Rodrigues, Luizinho, como é conhecido, entrou no meio sindical.
Durante a sua infância, as noções de mundo, de valores eram muito restringida. Um país com grande repressão, a liberdade para conhecimento além do que o ensinado dentro das quatro paredes das escolas era dificultoso. “O mundo não era um lugar muito autêntico”, conta Luiz sobre a realidade que enfrentou em sua juventude, com a vivência numa família que não era politizada.
O jovem do ABC paulista viu os seus olhos se abrirem para o mundo real, quando em meio a uma aula, um simples professor o mostrou que as pessoas vivem com bases em seus valores individuais. Com esse conhecimento todos poderiam mudar o mundo. “Comecei a chorar e ninguém entendia”, recorda Luiz sobre o momento em que percebeu que todos que estavam na sala poderiam reverter à situação em que viviam.
Essa emoção ocorreu durante um curso clandestino, realizado em Itaquaquecetuba, cidade localizada a aproximadamente 44 km de São Paulo. Assim, os seus primeiros passos no movimento sindical foram dados.
Inicialmente, escondido, ele e mais alguns companheiros de trabalho começaram a se organizar em grupos, até que em 1978, eles, agora de forma mais “legalizada”, participaram da Greve de 78.
“Essa foi a minha primeira grande experiência em lutas pela base metalúrgica.”
Nessa greve, trabalhadores de todo o Brasil, principalmente do polo industrial do Estado de São Paulo, o ABC, cruzaram os braços em busca de melhorias salarias, puseram os trabalhadores no mapa da política nacional e mudaram a modo do sindicalismo.
Durante toda a sua vida dedicada aos sindicatos, Luiz conheceu inúmeras pessoas, que posteriormente vieram a se tornar grandes personalidades nacionais. Uma delas foi o então metalúrgico e líder sindical Luís Inácio Lula da Silva.
“Era é uma pessoa de ouvir muito”, relembra Luizinho sobre o contato com o ex-presidente do Brasil. Lula era aquele dirigente sindical que gostava de sentir, de conversar, de conviver com o trabalhador. Ele adorava ir para as portas das fábricas e ter contato com os companheiros de labuta. O que garantiu uma maior cumplicidade com a base. Acompanhando essas idas as portas das indústrias metalúrgicas, o iniciante sindicalista conseguiu adquirir experiência para a luta pelos direitos e principalmente a escutar e a entender o que os trabalhadores pensam.
“Não gosto de dirigente. Eu prefiro representante.”
Ao trazer à memória um fato que ocorreu na capital paulista Luizinho confirma qual é o principal dever do sindicalista. Tal ocorrido foi quando Lula antes de subir no carro de som para a realização de uma assembleia, perguntou a um companheiro se estava tudo certo, e recebeu a reposta que não, pois o seu chefe não cumprimentava com bom dia. Vendo isso, Luizinho achou banalidade, mas se surpreendeu ao ver Lula expondo o caso durante a assembleia, já em cima do carro e cobrando o chefe. “Você deve estar próximo de quem você defende e lutar por sua causa.”, reafirma.
Além participar do sindicato na grande São Paulo, ele se dedicou a lecionar em cursos de formação de sindicalistas, como educador da CUT São Paulo, percorrendo as sub-sedes. E quando resolveu sair da central, várias propostas vieram, entre elas, Santos e Taubaté.
A sua vinda para o Vale do Paraíba foi assim, apesar de outras propostas serem melhores, Luizinho preferiu vir para cá, pois o projeto apresentado pela diretoria era melhor, mais organizado. Assim, em 2009, no mandado de Isaac do Carmo, então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Taubaté e Região (Sindmetau), estava aqui Luiz para trabalhar pelos direitos dos trabalhadores.
Sua passagem por Taubaté durou até 2013, quando mudou a direção do Sindmetau e por divergências, retornou ao ABC e iniciou o trabalho de recordação de experiências com outros companheiros de luta. Desses encontros originou-se um livro, ainda em construção, sobre as histórias de diretores metalúrgicos na capital paulista.
Mesmo estando em São Paulo, suas relações com o Sindmetau continuaram, tanto que, a gestão eleita em 2017, começou a pedir para que alguns trabalhos sejam feitos, até que em fevereiro de 2019, Luiz assumiu o posto de assessor político, e mantendo uma rotina de ida e volta entre interior e capital toda a semana.
“Iremos passar por grandes dificuldades.”
Vivendo ainda no meio sindical, Luizinho defende que a luta não pode acabar, mas deve-se manter o contato com o trabalhador no chão de fábrica, ouvir o que eles querem e principalmente estar próximo da população. “É cruel, muitos irão sofrer”, contesta o sindicalista sobre a atual situação brasileira e confirma que a luta pode se enfraquecer, no entanto, ela não acaba e um dia volta com força, como foi após os anos da ditadura militar.




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